Robocop (2014)

A versão de José Padilha para o clássico oitentão de Paul Verhoeven é um filme irregular.

Residem nele dois produtos distintos. De um lado, há um filme que busca criticar sem muita sutileza diversos pontos como a corrupção policial, a intervenção americana e a automação das forças armadas e o pensamento ultra-conservador da sociedade americana. De outro, há um blockbuster que busca se sustentar em elementos clássicos da produção comercial (o parceiro baleado, a família desolada e os executivos sem coração, por exemplo), mas que não escapa de mostrar-se apenas satisfatório em sua realização.

A história roteirizada por Joshua Zetumer, a partir do roteiro do Robocop original, não se restringe, felizmente,  a apenas atualizar ou repetir a história. Enquanto o filme de Verhoeven colocava seu foco principalmente na busca do policial Alex Murphy a seus assassinos, aqui temos um filme mais ambicioso em sua escala, dando voz a outros personagens além de seu protagonista. A trama em si é basicamente a mesma: após um atentado que o deixa entre a vida e a morte, o policial Alex Murphy (Joel Kinnaman, da série The Killing) é selecionado para tornar-se o primeiro híbrido de homem e máquina a patrulhar as ruas de Detroit.

"Missão dada é missão cumprida"

“Missão dada é missão cumprida”

Assim como no original, a narrativa é eventualmente interrompida por um programa de televisão, desta vez apresentado por um Samuel L. Jackson (cada vez mais Samuel L. Jackson) reacionário e direitista, que questiona o porquê dos Estados Unidos não terem unidades robóticas em solo americano, já que esta é uma realidade tão eficaz em países como o Irã, por exemplo. Obviamente favorável a esta questão está o executivo da OmniCorp Raymond Sellars (Michael Keaton, desagradável na medida certa), que vê na tragédia de Murphy a oportunidade certeira para ganhar a simpatia do público americano e colocar seu Robocop nas manchetes.

O roteiro de Zetumer corajosamente investe em dois pontos que Verhoeven basicamente desconsiderou em seu filme: colocar Murphy ciente de sua trágica situação e envolver a família do policial na trama. A primeira questão resulta numa das sequências mais impactantes do longo, na qual Murphy, despido de sua armadura, descobre o que sobrou de seu corpo após o procedimento que o transformou em Robocop, com ecos evidentes de Frankenstein e referências diretas ao Homem de Lata de O Mágico de Oz.

Se por um lado, porém, esta consciência do policial Murphy gera um conflito interessante sobre o que o torna humano, por outro dá origem a muita conversa pseudocientífica que poderia ser editada de forma bem mais eficiente, que só não é pior graças ao talento de Gary Oldman como o cientista responsável pela criação e desenvolvimento de Robocop.

Já no lado familiar, a bonitinha Abbie Cornish pouco tem a fazer com o material que lhe é entregue, e a relação entre Murphy e seu filho, embora dê origem a uma boa sequência na casa do policial, raramente eleva-se acima do melodrama básico, jamais se tornando orgânica à trama. Louve-se a intenção de Padilha e Zetumer em tentar cobrir todos os pontos possíveis da transformação de Murphy em Robocop, mas isso vai, aos poucos, minando o ritmo do filme, que jamais consegue ter um arco definido para seu protagonista.

A produção caprichada não oferece muita novidade: um futuro com cara de hoje. Laboratórios de Tony Stark misturam-se a campos de plantação da China (onde fica a fábrica da OmniCorp) e galpões desertos para treinamentos. A armadura de Robocop – vista em versões prateada e preta – mantém aquele sonzinho mecânico característico, mesmo quando este robô, agora mais ágil, corre e pula atrás de seus inimigos. A trilha sonora, agora a cargo de Pedro Bromfman (de Tropa de Elite) utiliza aqui e ali elementos do poderoso tema de Basil Poledouris, mas sem uma identidade clara e visível.

A fotografia de Lula Carvalho investe, assim como em Tropa de Elite, em muita câmara na mão e imagens tremidas.  Talvez por isso mesmo, seja uma pena que as cenas de ação sejam tão genéricas e artificiais, soando como algum arremedo de algum game de FPS, como no (que poderia ser) interessante tiroteio travado na escuridão.

Por outro lado, quando não está brincando de Call of Duty, Padilha oferece sequências intensas, como na divertida interação entre Murphy e seu parceiro na delegacia, na tentativa de um amputado em voltar a tocar violão com suas mãos mecânicas ou na conclusão do longa, um momento que foge ao clichê do ‘quanto mais explosão melhor’ de forma brilhante.

Robocop, assim, se estabelece como um remake de qualidade que honra o original e amplia seus conceitos, atualizando-o não apenas em termos de efeitos visuais, mas a partir da própria realidade em que vivemos, completamente diferente daquele do fim dos anos 80.

Se ele não é completamente bem sucedido é porque faltou a Padilha e ao roteirista Zetumer aquela ironia fina que tão bem fluía no filme de Verhoeven. Quando o apresentador Pat Novak (Jackson) brada a plenos pulmões como o mundo está melhor com os drones e robôs americanos em solo estrangeiro, ao mesmo tempo em que vemos os rostos em pânico da população local; ou quando “descobrimos”, ao longo do filme, que a corrupção está instalada nos mais altos níveis policiais e políticos, pouco sobra ao espectador para questionar ou racionalizar.

Padilha fez um filme inteligente. Mas deveria ter confiado mais na inteligência do espectador.

***

crítica publicada originalmente no blog amoscabranca.com

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