Robocop: o robô que queria ser gente

Às vésperas da estreia do novo Robocop, dirigido por José Padilha e estrelado por Joel Kinnaman, que tal darmos uma espiadinha em como foi a trajetória do Robocop original?

ROBOCOP (1987) 

Meio homem. Meio máquina. Senhores, nós podemos reconstruí-lo.

Meio homem. Meio máquina. Senhores, nós podemos
reconstruí-lo.

A primeira sensação que tive, lá nos idos de 1987, ao ouvir o nome de um filme chamado Robocop era a de que seria um daqueles filmes provavelmente protagonizado por John Cusack e com algum robô estilo C3-PO combatendo o crime. Ledo engano. Ultraviolento, irônico e cruel, Robocop marcou a primeira incursão oficial do cineasta holandês Paul Verhoeven em solo americano. E que estreia.

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É. Podia ser bem pior.

Ao contrário do que provavelmente  todos imaginavam, Robocop era uma sátira inteligente e certeira à sociedade e a à política americana dos anos 80. Com uma visual e uma estrutura narrativa que remete diretamente aos quadrinhos do Cavaleiro das Trevas de Frank Miller (as inserções dos noticiários, o uso de sombras e os cortes rápidos),  Robocop é uma aventura subversiva da melhor espécie, com um nível de violência e crueldade dignos de Sam Peckinpah. A versão disponível em blu-ray conta com pouco mais de 40 segundos a mais de filme, mas detalham com muito mais crueldade cenas como a morte do executivo da OCP e a perda do braço de Murphy.

É curioso perceber que Verhoeven não perde tempo em seu filme. Após mostrar a que veio na sequência do fiasco do ED-209, somos rapidamente introduzidos ao policial Alex Murphy (um desconhecido Peter Weller fenomenal em sua transição de humano para robô), do qual sabemos apenas que é um policial competente e que ama seu filho. E basta.

Em pouco mais de cinco minutos, Verhoeven transforma Murphy numa massa sangrenta e disforme que será transformada no policial do futuro – um robô que para combater a violência usa de ainda mais violência para isso. Um caso de estupro? Sem problemas, basta dar um tiro no pênis do estuprador. Ah, os anos 80.

Há quem veja em Robocop uma referência direta a Jesus Cristo, O próprio Verhoeven já admitiu em entrevistas que boa parte da trajetória de Murphy se espelha na vida do bom JC. Alguma dúvida? Vejamos: ele é morto por seus inimigos, traído por seus amigos, tem sua mão “perfurada”, ressuscita, anda sobre ás aguas e é ferido com uma lança no peito. Ah, sim, e ainda resolve todos os seus problemas na presença de seu “criador”.

Deixem meu povo ir.

“Deixem meu povo ir.”. Ops, filme errado.

Os efeitos de maquiagem e próteses funcionam de forma efetiva até hoje. Além do visual do Robocop, como esquecer do destino cruel do pequeno Emil, que não só foi derretido em ácido como ainda foi atropelado e destroçado pelo maligno Clarence Boddicker (Kuurtwood Smith, o RED de That 70´s Show). Talvez apenas os efeitos em stop-motion de Ed-209 não convençam tanto, mas aí o que fica é o charme do visual oitentão.

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“Let it go. Let it go”

Seja pelas frases de efeito (“Dead or Alive, you’re coming with me”), pela trama simples mas eficiente ou pela violência desmedida, Robocop figura hoje como um dos grandes ícones dos anos 80, um filme modesto em sua produção, mas cujo alcance foi muito além de sua premissa de filme B.

ROBOCOP 2 (1990)

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Meio homem. Meio máquina. E agora azul.

Após o sucesso do Robocop original, uma continuação era a consequência óbvia. Devido a seu trabalho em Total Recall, Verhoeven (espertamente) saiu do projeto, no que foi substituído pelo veterano Irvin Kershner, responsável apenas por O Império Contra-Ataca, considerada uma das melhores sequências de todos os tempos. Para o roteiro, foi escolhido Frank Miller, que naquela época era o King of the World dos quadrinhos e que, como sabemos, teve forte influência em boa parte do visual do primeiro filme.

Tinha tudo para ser um grande filme.

Mas, como sempre acontece algo deu muito errado.

Para começar, o roteiro de Frank Miller, segundo contam as histórias de bastidores, foi picotado pelos produtores, tornando-se pouco mais do que uma colcha de retalhos irritantemente episódica sem coerência ou continuidade. É visível perceber que o filme levanta diversas questões, mas é incapaz de dar prosseguimento a qualquer uma delas.

Essa imagem representa bem o roteiro do filme.

Essa imagem representa bem o roteiro do filme.

Assim, no começo do filme Murphy aparece stalkeando sua esposa e seu filho. Após uma conversa rápida do tipo ‘você não é mais humano, pare de ficar se engraçando com sua ex-mulher’, este conflito termina. E não volta. Nunca mais.

Do mesmo modo, quando Robocop é destroçado pelos traficantes do mal (sério, de tudo o que podiam fazer com Murphy eles basicamente o desmontaram? Ele é um robô!) e uma nova programação é inserida em seus bancos de memória, temos exatamente 10 minutos de um protagonista bobão que fica dando lições de moral para crianças. Isso influencia o resto da trama? Não.

A montagem do filme também parece ter se perdido junto com o roteiro original de Miller. Em determinado momento, Robocop some do filme por mais de 20 minutos. E ninguém sente falta. Para piorar, Kershner (comprovando que só se deu bem em Império porque tinha George Lucas em seu cangote) entrega uma direção burocrática e sem personalidade, com sequências de ação sonolentas e desinteressantes.

OK, você me passa o Nuke e eu acerto o Frank Miller.

OK, você me passa o Nuke e eu acerto o Frank Miller.

Nem os efeitos especiais se salvam, com o novo Robocop 2 (um autômato cheiradão) alternando-se entre dois e cinco metros de altura sem muita cerimônia. A violência é atenuada ao nível de telefilme da sessão da tarde e a fina ironia que percorria o original é trocada por um humor de gosto duvidoso. A trilha bombástica e exagerada de Laurence Rosenthal (com coros femininos de ‘Robocop!’) termina de enterrar nosso querido ciborgue.

Salva-se, mas bem por cima, pela ainda ótima atuação de Weller e pelo novo tom azulado da armadura. Hummm, pensando bem, nem isso.

ROBOCOP 3 (1993)

Meu capacete continua o mesmo, já a minha cara ...

Meu capacete continua o mesmo, já a minha cara …

O primeiro sinal de que uma franquia está afundando é quando boa parte do elenco resolver sair do barco antes do desastre. Dessa vez, nem Peter Weller resolver voltar para o papel que o havia consagrado. Nancy Allen, provavelmente presa por algum contrato, concordou em voltar mas pediu para ser morta logo nos primeiros minutos.

Apesar do fiasco do filme anterior, Frank Miller volta ao roteiro da saga. Achando, desta vez, que estava fazendo um filme dos X-Men, Miller inseriu corporações japonesas malignas e samurais androides na história, fazendo com que Robocop se transformasse, do vigilante e vingador sanguinário do primeiro filme, em amigo e coleguinha dos homeless de Detroit. E que conta ainda com a ajuda fundamental de uma menininha hacker (outro sinal claro de que uma franquia está afundando).

E ela ainda tem um bonequinho do Robocop. Que meigo.

E ela ainda tem um bonequinho do Robocop. Que meigo.

Quem assume desta vez a batuta da direção é Fred Dekker, diretor consagrados dos esquecidos Deu a Louca nos Monstros e Noite dos Arrepios, cuja carreira basicamente se acabou após Robocop 3. Podem conferir no IMDB.

No lugar de Peter Weller entrou Robert John Burke, que faz um bom trabalho tentando emular o Robocop original, apesar do material que lhe foi dado. Sua atuação robótica pode ser ainda conferida em  séries como Arquivo X e Law and Order: SVU.

Pelo menos alguém se divertiu com este fime

Pelo menos alguém se divertiu com este filme

Com um roteiro preguiçoso e sem a menor lembrança do humor sarcástico e da ultra-violência do primeiro filme, este  Robocop 3 “censura 10 anos” sucumbe ainda por conta de um orçamento limitado, o que resulta em cenas de ação constrangedoras (Robocop, por algum motivo inexplicável, passa mais da metade de seus confrontos caído no chão) e efeitos de terceira categoria, que encontram seu ápice nas sequências em que Robocop voa. Sim. Robocop. Voa. Sério, Miller, no que você estava pensando quando escreveu isso?

Fiasco comercial e de crítica, Robocop 3 deu fim à saga de Alex Murphy no cinema. Uma prova de que, de um jeito ou de outro, todo herói de ação um dia vira action figure. Você sabe, é para as crianças.

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Para o infinito, e além.

*matéria publicada originalmente no site amoscabranca.com

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